Língua do P.


Eu resolvi me mudar.

Esqueçam isso aqui. Mudei. De idéia, de endereço, de vontade.

http://paralercantando.blogspot.com

Adeus, Língua do P.

P.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 12h21
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Cardaços que desatam.

De colocar os pés nos sapatos que o outro calça.

– Disso que falas? E trazes um tratado comportamental baseado em quê? Tuas próprias vivências, como se fossem as minhas? E já não sabes – tu, tão cheio de certezas – que o calo aperta diferente pois os caminhares são únicos? Eu sei o que desejas. Imbecilizar os descaminhos que foram meus, tal qual fizeste ao me convencer de, naquele dia infeliz que não recordo por querer, que a vida nossa seria nossa. Mentiste. Era tua vida em jogo. E me fiz e refiz inúmeros dias após dias para que o teu caminhar pudesse ser nosso. Mentiste tu e menti eu. Chega. Vens me dizer agora frases de defeito de moral e caráter, discurso argumentativo característico de acadêmicos pseudo-intelectuais. Porra. Chega. Enfiei mais que meus pés em teus sapatos. Enfiei os pés pelas mãos e aqui estou te ouvindo dizer que vais. Pois vai. Chega.

Naquela noite, Ella dormiu só. Pela última vez em sua existência.

E fui eu o observador de toda a sua vida para aqui contar. Menos infeliz e mais por admirar sua nobreza em vida. Feliz também fui.






Escrito por Pedrinho Fonseca às 14h56
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De cor.

Rosa é nome de flor
Dor se veste de preto
Verde dos olhos
Verde dos jardins
Onde há flores
Rosas sem fim

Deixa eu ver
Que vermelho há no sangue que corre
O cinza que escorre
Da laje desbotada
Que a chuva lavou
Sem cor ficou

Eu sei de cor
Cada tom que pinta o dia e faz
Meu olhar
Colorir o que há de mais
Entre as cores que vemos
As dores que temos
Eu sei de cor
Eu sei da cor
Que teus olhos não têm

Escrito por Pedrinho Fonseca às 22h22
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Viagem insólita III.

O carinho é uma planta que mora no jardim que há dentro de nós, mas cujo responsável para regá-la sempre é outra pessoa.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 12h22
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Viagem insólita II.

O tesão é um vírus que você contrai com os olhos, mas que atinge em cheio as glândulas salivares.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 12h19
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Viagem insólita I.

O amor é um boato que você espalha para si próprio.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 12h18
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Arma.

– Assim fica difícil desamar.

– Desarmar?

– Não, desamar. Deixar de amar.

– Ah, é desarmar mesmo.

E logo saiu vestida de dia pela noite cinzenta. Porque o amor é cinza. Preto no branco.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 09h44
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O recibo que Porfírio não encontrou no lixo. Não naquela noite.

Devastado, em estado de desgraça, Porfírio tentou atirar-se contra o espelho e não chegou a ferir-se fisicamente. Apenas a sensação triste de incompetência plena por não destruir seu maior inimigo. O sujeito cheio de empáfia prostrado frente a si próprio. Desatinou. Atinou. Nada que fosse contra seus pulsos sempre cerrados em defesa pelo mundo cão iria causar feridas graves. Desagravou-se. Sentiu saudades do que não foi jamais, do que deixou de viver em vida, pensou nos pensamentos que afastou. Afastou-se. Olhou o inimigo nos olhos. Baixou os olhos. Voltou a olhar e ele ainda o contemplava, irônico – quase.

{Olhou o sol desistir daquele dia pela pequena janela do banheiro. Chorou. O inimigo rendeu-se. E chorou junto, vendo a fraqueza do outro.}

Porfírio saiu para a noite como quem vasculha o lixo atrás de um recibo bancário. Não encontrou. Não encontrou-se. Não naquela noite, depois de fazer as pazes com seu maior inimigo.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 10h18
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Insuportável bom humor matinal.

Ninguém me atura de manhã. Nem eu.

{Aos POLEGADAS: "Bora, bora, boraaaaaaaaaaaaa".}






Escrito por Pedrinho Fonseca às 09h04
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Incontinência.

Antes que a noite durma
fique tarde
e seja madrugada
quando faço samba e amor
me ponho a chorar
e os lábios teus
lágrimas minhas
se encontram
para salgar
agravar
o que temos por nós



Escrito por Pedrinho Fonseca às 08h26
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Esperou. Pero no mucho.

Desesperou uns dias. Até que ele veio. E ela voltou a esperar.

{Para você aí que flagrou a vida acontecendo nos seus aposentos, mas ergueu – novamente – todos os seus castelos nas areias do Leblon.}

Escrito por Pedrinho Fonseca às 21h07
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Velas acesas. Velas içadas.

A semana está acabada. Eu estou no mesmo barco.
Velas içadas que ventos bons ameaçam chegar.




Escrito por Pedrinho Fonseca às 21h02
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Pois é.

Falaram tanto, que a morena foi embora.

{Ataulfo Alves, 1955, em Ré Menor.}

Escrito por Pedrinho Fonseca às 10h24
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Onde mora Helena.

Curiosidade dava coceiras em Helena. Era doença passageira, mas incomodadeira. Era efêmera e sabia ela que puramente fêmea também era, aquela curiosidade curiosa de querer saber quem morava nas casas. Olhava para o sobrado após a primeira descida do trem dia após dia, tentando ver além da pequena janela de madeira velha, caindo aos pedaços. Queria uma pista, uma camisa estendida, uma calcinha velha, uma fralda. Se fralda houvesse, mais fácil seria. Imaginaria uma família simples e trabalhadora, colocaria o nome do marido de Geraldo, que é nome de homem trabalhador. A esposa certamente seria Lúcia, devota da Nossa Senhora do Bom Parto depois do nascimento – e aí entravam as fraldas na sua história – da pequena Júlia, que teria nascido prematura mas passava bem, agora com 6 meses. Continuou seu caminho ao ponto de ônibus que ficava no final da rua. Sua maior dor morava ali. A maior coceira de todas. Uma sarna incontida. A casa de dois andares, estreita e com terreno longo, que tinha os fundos amparados pelo Córrego da Madeira. As pistas nunca foram claras. A fumaça derradeira de um churrasco à noite. Ou seria uma fogueira? E a bandeira do Brasil desbotada, hasteada na antena de tv externa? Helena parou. Naquele dia, parou.

{Tem peças do quebra-cabeça que montam para a gente que só encaixam quando afastamos o olhar do que está montado. Outras, não. Precisam ficar na mão até acharmos o seu local correto.}

Helena tocou a campainha. Nenhum ruído. Bateu no portão, que abriu ao seu gesto.

Helena nem hesitou.

Caminhou vagarosamente e viu a grama bem cuidada no curto espaço entre o muro e uma pequena varanda com uma rede suja.

Um homem de bengala abriu a porta, olhando para o infinito. Perguntou quem ali estava, invadindo sua casa. Helena negou a invasão. Declarou a curiosidade. E viu que ele não a via.

...

Dois anos depois, Helena beijou a testa de Alberto e deixou a casa. Olhou para cima e viu as cinzas da lareira, que teimavam em manchar o céu azul com sua aquarela cinzenta.




Escrito por Pedrinho Fonseca às 10h22
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Roupa nova.

Meu Orixá se vestiu de nu.

Escrito por Pedrinho Fonseca às 19h07
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